A NT 22/2021 do Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão estabelece parâmetros para dimensionamento, instalação, manutenção, aceitação e manuseio dos sistemas de hidrantes e mangotinhos nas edificações e áreas de risco em que essa proteção é exigida.
Mais do que instalar pontos de água
Hidrantes e mangotinhos constituem um sistema fixo de combate a incêndio. Seu objetivo é disponibilizar água com vazão e pressão adequadas para a atuação inicial, reduzindo a propagação do fogo até que a ocorrência seja controlada. Para isso, não basta que o abrigo esteja visível: a condição hidráulica no ponto mais desfavorável precisa corresponder ao projeto.
A confiabilidade nasce ainda na fase de concepção. Ocupação, área, altura, riscos do processo, compartimentação, rotas de acesso e características construtivas influenciam a seleção e a distribuição do sistema. Alterações posteriores no leiaute também podem comprometer uma cobertura que originalmente era adequada.
Os elementos que precisam funcionar em conjunto
A disponibilidade de água na ponta do esguicho resulta de uma cadeia de componentes. Uma única válvula fechada, uma bomba indisponível ou uma reserva insuficiente pode impedir o desempenho esperado.
Reserva de incêndio
Volume de água destinado à proteção, preservado contra consumo indevido e compatível com a ocupação e a área protegida.
Bombas e controles
Conjunto responsável por fornecer vazão e pressão, com acionamento, alimentação, instrumentos e condições seguras de operação.
Rede de tubulações
Tubos, conexões, suportes e válvulas dimensionados para conduzir a água sem perdas incompatíveis com o projeto.
Pontos de combate
Abrigos, mangueiras, carretéis, válvulas, esguichos e acessórios distribuídos para alcançar as áreas protegidas.
Recalque
Dispositivo que permite ao Corpo de Bombeiros alimentar ou reforçar a rede a partir de uma viatura.
Gestão e manutenção
Inspeções, testes, registros, sinalização, treinamento e correções que mantêm a instalação disponível ao longo do tempo.
Projeto e dimensionamento hidráulico
A NT 22 classifica as soluções em sistema tipo 1, correspondente a mangotinho, e sistemas tipos 2 a 5, correspondentes a hidrantes. A escolha é vinculada à ocupação e à área da edificação, e cada tipo possui requisitos próprios de mangueira, esguicho, vazão e pressão mínima.
O projeto deve apresentar memorial com os cálculos e o dimensionamento, além de perspectiva isométrica completa da rede, cotada e com os hidrantes numerados. Em sistemas com mais de um hidrante simples, a verificação hidráulica considera os dois pontos mais desfavoráveis em funcionamento simultâneo. As perdas de carga, o desnível geométrico e as características da bomba precisam ser compatibilizados com o desempenho exigido nas válvulas.
O projeto precisa demonstrar que água, vazão e pressão estarão disponíveis onde o combate é mais crítico — não apenas junto à casa de bombas.
A norma limita a velocidade na tubulação principal a 5 m/s e estabelece pressão máxima de trabalho no esguicho de 100 mca. A sucção da bomba também possui limites próprios de velocidade, conforme a condição de sucção positiva ou negativa.
Cobertura e localização dos pontos
A distribuição deve permitir que qualquer ponto da área protegida seja alcançado por um jato nos sistemas tipos 1 a 4 e por dois jatos no sistema tipo 5. A análise considera o percurso real da mangueira e o alcance mínimo de 10 m do jato, sem atravessar barreiras físicas e mantendo contato visual com o ponto protegido após a entrada no compartimento.
- os pontos devem ficar em locais visíveis, acessíveis e protegidos contra danos;
- a instalação deve ocorrer a não mais de 5 m das portas externas, acessos principais ou escadas;
- hidrantes e mangotinhos devem permanecer fora das escadas e das antecâmaras de fumaça;
- a válvula deve ficar entre 1,0 m e 1,5 m do piso;
- portas, divisórias, estoques e equipamentos não podem bloquear o acesso nem invalidar a cobertura.
A cobertura deve ser verificada no local e confrontada com o projeto aprovado. Mudanças de uso, ampliações ou novas obstruções justificam uma reavaliação técnica.
Reserva técnica de incêndio e bombas
O volume da reserva técnica de incêndio — RTI — é definido pela área e pela ocupação, conforme a Tabela 3 da NT 22. O reservatório deve manter o volume efetivo disponível ao sistema, com alimentação, tubulações, válvulas e indicação de nível em condições adequadas.
Quando a pressão da rede pública ou a diferença de nível não atendem aos requisitos, emprega-se uma bomba centrífuga, elétrica ou acionada por motor a combustão. A seleção precisa considerar o ponto de operação calculado, enquanto a instalação deve permitir inspeção, manutenção, drenagem, ventilação e acesso seguro.
O ensaio funcional verifica mais do que a partida da bomba: deve confirmar acionamento automático e manual, ausência de vazamentos, posição das válvulas, funcionamento de manômetros e pressostatos e atendimento à vazão e à pressão previstas no projeto.
Recalque, abrigos e materiais de combate
Todos os sistemas previstos na NT 22 devem possuir dispositivo de recalque para uso do Corpo de Bombeiros, com o mesmo diâmetro da tubulação principal. Ele pode ser instalado na fachada ou em abrigo embutido, deve permanecer sinalizado e acessível e não pode apresentar vazamentos ou incompatibilidades de conexão.
A introdução do recalque deve ficar voltada para a rua ou para baixo, em ângulo de 45°, a uma altura entre 0,60 m e 1,50 m do piso. Para vazões superiores a 1.000 L/min, a norma prevê duas entradas de recalque. A instalação no passeio público é uma solução excepcional, admitida quando houver impossibilidade técnica comprovada.
Os abrigos são de uso exclusivo do sistema. As mangueiras flexíveis devem ser acondicionadas em zigue-zague ou de forma aduchada, conforme a NBR 12779; mangueiras semirrígidas permanecem em carretéis axiais. Válvulas, esguichos, chaves e mangueiras devem ser compatíveis entre si, estar conservados e permitir retirada e utilização imediatas.
Comissionamento e inspeção periódica
Na primeira vistoria de regularização da edificação ou na renovação da licença do CBMMA, a NT 22 exige a apresentação do relatório de comissionamento ou inspeção do sistema. O Anexo F organiza uma verificação ampla, que deve ser conduzida com responsabilidade técnica e evidências registradas.
- comparar a instalação executada com o projeto aprovado e verificar a cobertura dos compartimentos;
- inspecionar localização, sinalização, desobstrução, conservação e estanqueidade dos pontos;
- avaliar mangueiras, esguichos, válvulas, abrigos e acessórios, incluindo identificação e certificação aplicáveis;
- ensaiar bombas, acionamentos, instrumentos e condições de vazão e pressão;
- verificar tubulações, suportes, pintura, corrosão, alinhamento, vazamentos e posição das válvulas;
- conferir recalque, reservatório, volume disponível e condições de acesso;
- registrar resultados, anomalias, correções e ciência do responsável pela edificação.
Não conformidades que merecem atenção
Entre as condições que podem comprometer a prontidão do sistema estão:
- abrigos obstruídos, sem sinalização, danificados ou utilizados para guardar outros materiais;
- mangueiras deterioradas, mal acondicionadas, sem identificação ou sem comprovação de inspeção;
- vazamentos, corrosão, suportes deficientes e válvulas indevidamente fechadas;
- bomba que não parte automaticamente, instrumentação inoperante ou desempenho abaixo do projeto;
- reserva de incêndio indisponível, compartilhada de forma inadequada ou com nível insuficiente;
- recalque inacessível, sem sinalização ou incompatível com a conexão de operação;
- alterações de leiaute que bloqueiam os equipamentos ou deixam áreas sem cobertura;
- ausência de projeto atualizado, registros de manutenção ou relatório com responsabilidade técnica.
Tratar essas falhas antes da vistoria reduz retrabalho, mas o principal benefício é outro: manter uma barreira de proteção disponível quando cada segundo importa.
Projeto, inspeção e regularização
Um sistema confiável precisa ser comprovado em campo.
A ENGIVOR pode apoiar o levantamento da instalação, o projeto e dimensionamento hidráulico, a inspeção dos componentes, os ensaios funcionais e a emissão de relatório técnico para sistemas de hidrantes e mangotinhos.
Solicitar avaliação do sistemaReferências técnicas
- CBMMA. NT 22/2021 — Sistema de Proteção por Hidrantes e Mangotinhos.
- CBMMA. Legislação técnica da Diretoria de Atividades Técnicas.
- ABNT NBR 13714 — Sistemas de hidrantes e de mangotinhos para combate a incêndio.
- ABNT NBR 12779 — Mangueiras de incêndio — Inspeção, manutenção e cuidados.
Este artigo é informativo e não substitui o projeto, a inspeção da instalação, a análise do CBMMA nem a responsabilidade técnica do profissional habilitado.

